Construímos castelos com tudo o que temos e o que não temos. Criamos um grandioso castelo, em que todos acreditamos que é impossível cair, que vai perdurar anos e anos até os últimos tempos da nossa vida… quem sabe até depois da nossa vida. Vemos e contemplamos-os horas a fio, vemos a importância do castelo e vivemos orgulhados e maravilhados com o que criámos, nós vivemos para isso e não nos importamos com isso, o castelo tem tudo o que nós precisamos.
Um dia acontece o impensável, o castelo começa a ganhar fendas, estranhamos, mas pensamos que são apenas pequenas fendas sem importância. Passam dias e as fendas aumentam, começam a cair pedras, preocupamos-nos e começamos a fazer perguntas, e perguntamos, e voltamos a perguntar. Começam a aparecer mais fendas, as pedras que caiem são também maiores e começam a fazer mais estragos. Nós olhamos com preocupação mas continuamos a acreditar que ele vai durar para sempre, e pensamos para nós mesmos que só é preciso um pouco mais de preocupação, e tentamos reparar as fendas. Ao fim de um tempo lá está o nosso castelo forte outra vez, sorrimos e vamos em frente sem mais questões.
Passado dias, as fendas voltam a aparecer, mas desta vez pior que antes, olhamos com tristeza mas lutamos para que o castelo não caia, seguramos pedras, seguramos berros de desespero, fazemos de tudo para que não comece a desmoronar, perguntamos porque, perguntamos como podemos resolver tudo, mas as respostas não aprecem e o castelo desmoronasse mais rapidamente. Vemos todo o nosso trabalho, todo o nosso esforço, a nossa casa, o nosso refúgio, vemos até bocados de nós a caírem com o castelo, desesperamos e tentamos segurá-lo mas parece que só fazemos pior e ele cai mais depressa. Derramamos lágrimas, gritamos com todas as nossas forças e gastamos toda a nossa energia para que tudo fique bem. Nada se resolve… o castelo continua a cair e sentimo-nos cada vez mais sozinhos… sentimo-nos magoados, sentimos raiva… Até que um dia, já não sentimos nada por termos sofrido tanto… ficamos apáticos e deixamos de lutar e continuamos a sentir o peso do castelo sobre nós…
Neste momento, sem qualquer sentimento, encontramo-nos sentados perto do que resta do nosso castelo, estamos sem expressão, com as lágrimas já secas na nossa face e sujos de toda a confusão… Ficamos com o nosso olhar fixo nos destroços do nosso castelo e na enorme poeira que cobre tudo á nossa frente.
Começam a aparecer novas perguntas… O que eu fiz? Porque isto aconteceu? O que faço agora?... Nenhuma resposta parece ser respondida… É então que ficamos pasmados com o que vemos… A poeira começa a pousar e vemos á nossa frente o que nunca tínhamos visto… Reparamos que ao nosso redor existem milhões de castelos e vemos também os seus construtores… Uns castelos são grandiosos e realmente fortes, outros mais pequenos mas igualmente fortes, uns em ruínas e outros a cair. Vemos que nem todos os construtores repararam ainda no que se passa à sua volta. Não sabem da existência de outros castelos, e continuam presos às suas ruínas, outros continuam a lutar para que o castelo não caia, mas tudo em vão. Existem também outros construtores que são diferentes, vêem o que se passa a sua volta, olham para o seu castelo e começam a fazer alguma coisa, uns deixam as suas ruínas para trás e constroem um novo, outros começam a reconstruir o seu castelo, outros constroem vários castelos mais pequenos, mas fortes, e a seu tempo vão aumentando os seus castelos equilibradamente. Alguns castelos voltam a cair, mas os construtores estão diferentes, eles observam a queda do castelo, ficam pensativos e a seguir voltam a construir, mas de maneira diferente. Todos parecem procurar algo e esforçam-se para obter isso, eles agora não estão apenas a agir, eles estão a ver algo que nem todos estão a ver…
Ficamos a observar e a pensar sobre tudo o que acontece á nossa volta, os diferentes castelos, o porque das diferentes acções de cada construtor, tudo, e é então que entendemos… Muitos castelos são construídos por ilusões, os construtores estão cegos e não vêem mais nada à sua volta, se não o seu castelo… constrói-o sem ver os seus erros e os seus problemas, outras vezes simplesmente não querem ver… Uns às vezes constroem sem conhecer-se a si, sem conhecer o que realmente são, e as suas capacidades. Alguns até constroem a pensar em agradar outra pessoa … Não podemos construir nada sólido sem ter noção do que realmente somos e o que queremos, sem nos conhecermos e saber os nossos limites. Mas esses construtores não vêem isso, aliás não vêem nada nem querem ver, estão presos na sua ilusão… Quando os seus castelos caiem, eles simplesmente continuam presos á sua ruína, ficam sentados a olhar para ela a lamentarem-se e sem pensarem em mais nada. Alguns destes construtores ficam presos na sua ilusão até morrer, uns libertam-se apenas perto da sua morte, pois é quando finalmente fazem as perguntas certas, outros criam várias ilusões e nunca as esquecem, acabam por criar várias ruínas e carregam o peso de todas elas.
Mas existem construtores que abrem os olhos, não criam ilusões e procuram evoluir como seres que são, aprendem com os seus erros e assim melhoram o que são como também melhoram o seu castelo. Quando o seu castelo cai, eles pensam no que falharam, onde erraram, e procuram melhorar isso neles mesmos, em seguida, voltam a construir o castelo sem esse erro. Assim o castelo crescerá cada vez mais forte, assim como o seu construtor.
Que construtor somos? Somos construtores que procuram evoluir como ser, ou somos construtores que nos deixamos estagnar? Perguntas que devemos fazer a nós próprios e que só nós podemos responder.